quarta-feira, 12 de setembro de 2007

Devir Gado

Ano passado, conheci uma Russa. E ela sofria várias tiradinhas. Tipo “máfia russa!”, “roleta russa!”, “comunistas malditos!”. Pensávamos que ela não levaria a mal, afinal mora há oito anos no Brasil. Um dia, senti um climão e resolvi perguntar: “Ficou brava com a brincadeirinha?”. Ficou. E acabou comigo. Disse que nossas brincadeiras são de extremo mal gosto, pois brincamos com um passado muito doloroso e indigesto. Falou sobre pan-eslavismo, corrigiu o comunismo atentando para o socialismo e descreveu situações constrangedoras e preconceituosas vividas aqui no Brasil. Tentei explicar sobre o humor escrachado característico do povo brasileiro. Não colou. Experiências contraditórias demais.
Então, nos últimos dias a reflexão sobre o ocorrido me veio novamente, aliada a outras inquietações. Primeira delas:
Se estou correta sobre o humor “característico” da maior parte dos brasileiros, o tal do escracho, estamos fodidos mesmo. É por que, na minha opinião, aquele que perde o amigo e não perde a piada, não se compromete com nada e logo, não reivindica , não preserva o seu meio, não se preocupa nem consigo, muito menos com a coletividade. Poderíamos unir a isso, a carência de identidade nacional, pois, sejamos francos, sua tentativa de existência e propagação está mais na forma publicitária do “Sou brasileiro e não desisto nunca”, do que nas efetivas práticas cotidianas, tampouco nas políticas públicas. E isso vai se refletir na falta de pertencimento do sujeito à nação. Pensei se isso é importante. Conclui que sim, afinal nosso sistema econômico e cultural é baseado nesse tipo de sensação e trânsito entre público e privado. (Marx filho de uma puta!)
Segunda inquietação, ainda aliada a primeira: estes dias eu estava lendo o Estatuto da Criança e do Adolescente e pareceu que eu vivia no melhor dos países. Suspirei. Mas logo caí em mim. A coisa é tão genérica que permite ao estado o mínimo de investimento. Por exemplo: toda criança e adolescente têm direito à integridade física e moral, saúde, educação etc, mas não se fala em qualidade! Isso tem dois lados, ainda ingênua pensei “Não, quem redigiu isso pensou nas singularidades de cada gestão.”. Mas caí em mim novamente: o caralho! aqui no Brasil, o que é de caráter transitório e emergencial torna-se definitivo!
Terceira inquietação: lendo o Diário Oficial do Estado, conclui que aquilo não foi feito para ser lido. Diagramação lazarenta, linguagem textual “neutra” daquele jeito. Não à toa nós brasileiros com “educação formal”, “letrados”, somos tão desinteressados. A legislação nos é muito distante, embora, em teoria, norteie nossa atuação civil. A constituição ou qualquer outro estatuto, seguem esse padrão.
Não à toa temos em nós o devir gado. Vou dar um exemplo: dia desses estava num curso onde o cafezinho é oferecido gratuitamente:
- Oi, tem café?
- Não.
- Brigada.


Saí. Lá fora:

- Tem café?
- Não.
- Vão fazer?
- Não sei.
- Você não perguntou?
- Não.


Devir gado. Tá explicado?