terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Jingle Bléh!

Voz alta, dedos em riste, euforia, lágrimas. Peru cru em meio a uma busca pela perfeição, que não vai chegar. Onze e meia, coisas no forno. A mãe enfeitando o que dá. Cobrando as filhas para ajudá-la, mas não vai adiantar. Toneladas de frutas que vão estragar. Por que somos só nós. Mas parece que ela não entende.

Toda delícia tem uma dor. Natal pra mim é isso. Aparentemente deveria ir de acordo com a maré da confraternização. Dar esmolas na rua. Doar cestas básicas. Visitar parentes distantes. Não.

Venho de uma família desunida e acho isso “normal”. “Anormal”, pra mim, é quem tem família grande, pais casados, tios e tias presentes, avós...Eu tenho tudo isso, mas todos estão separados. Então, cada Natal da família é fragmentado.

Por conta de, em casa, estabelecemos um pequeno ritual de fim de ano. Eu, mamis e irmã. . De vez em quando algum agregado. E uma avó. Pra mim tudo bem. Mas essa aparente simplicidade resguarda aquela intimidade familiar secreta que é de arrepiar os cabelos. Desenterra angústias e mágoas de uma vida inteira. E quando menos se espera, essa reunião se transforma numa cena de Almodóvar. Com revelações bombásticas, passionais, análises veementes e por fim, abraços e beijos, como se tudo fosse muito natural. E é. Isso me assusta.

Tentamos melhorar, juro que todo ano tentamos. Já foi pior, o que me alivia. Por mim, pediria uma pizza e tomaria uns vinhos. Já estaria ótimo. Realmente detesto as pessoas torrando o décimo terceiro, a solidão e saudosismo que surgem, a falsa solidariedade mascarada pelo desejo de se eximir de responsabilidades cotidianas. E mais, a pressão cultural da data, que te obriga a abrir o espírito para o mundo. Bléh!

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Beijo terno de despedida

Foi. Morreu depois de dois anos de torturas incessantes, parece que aliviada e irreconhecível em seu semblante. Vi de longe, que não gosto de corpos sem vida, eles não fazem muito sentido pra mim. Jamais chorei por ver um chegado morto. Chorava pelo impalpável, não pelo corpo. Que o corpo sem vida, é só um corpo. Me faz pensar se existe mesmo ânima, alma, prana e todas essas coisas.

E as tais das marcas. Sim, era uma velhinha de 90 anos, racionalmente todos sabiam, isso tornava as coisas mais fáceis. Mentira. Em alguns momentos, de repente as marcas se faziam presentes, chorávamos com força, emocionados, sei lá por que, talvez pela celebração de uma existência em nossa memória.

A celebração foi o motivo do velório. Uma celebração de vida. Foi numa igreja antiga, a que a morta e suas irmãs começaram a frequentar de meninas, quando chegaram de Jundiaí pra cidade grande. Essas irmãs, talvez sejam as mais antigas frequentadoras desse local, o que as angustia. Por não verem mais os amigos, amores e desafetos, a maioria esmagadora já defunta. Quanto será que falta para chegar a hora? Vejo minha avó se movimentando o tempo inteiro, de olhos bem atentos a qualquer detalhe, para não perder nadinha, nadinha desse mundo, dessa vida que pulsa de forma mais que vigorosa nela, mais vida do que qualquer um que conheço. Recolhe todo o tempo as migalhinhas das pequenas coisas e tece uma colcha, entrelaçando-as em suas memórias. Meus olhos marejam de pensar. Emocionada pela vida, não pela suposta proximidade da morte.

O velório teve cheiro também de infância, um paraíso de expectativas perdido no tempo. Pois aquela igreja também frequentei quando pequena, eu pagã e satisfeita com isso, mas frequentando pra agradar a vó, sempre querendo me converter. Não desiste. Mas ouço com o peito aberto e grata aos céus por ter a melhor avó do mundo.

Tias, tios, primos que a vida afasta. Com alguns ainda guardamos uma cumplicidade bem no fuuundo, com outros nos comportamos como desconhecidos, o que é mais que estranho, depois de ter trocado a mais profunda intimidade pueril.

E por falar em infância, neste dia mergulhei nas histórias das minhas velhinhas, todas elas ainda muito meninas, com gestos e trejeitos cúmplices conservados até hoje. As falas do pastor foram de se dispensar, ele estava piorando o que para um cristão, deveria ser motivo de comemoração: a passagem para o tal do paraíso. Mas as homenagens prestadas pelas irmãs...essas...quanta luz!

Não repito aqui, algumas partes esqueci, mas gostaria muito de ter eternizado este momento, por mais mórbido que isso possa parecer. Foi um encontro de memórias e perspectivas, recordações engraçadas e dramáticas. Um encontro comigo mesma e com fendas que eu nem mesmo me lembrava.

Foi uma baixa no time das irmãs, tão unidas. Mas, repitindo o que uma delas disse: "Continuamos aqui, em quatro (depois de perderem quatro), felizes e unidos como sempre fomos, festejando e comemorando a vida como sempre fizemos".

Lágrimas de alegria por ter conhecido tais pessoas.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Bicho indomável

Quando eu tinha uns 17 anos, mais uma vez, ameacei minha mãe que iria sair de casa. Até aí, a minha lembrança mais remota de uma cena dessas, remonta a uns cinco anos de idade. Queria uma coisa. Não me davam. E eu dizia que iria fugir. Um dia meu pai abriu o portão e disse: "Vai". Chorei. Não fui. Pequenininha.

Na última decisão, antes de sair mesmo de casa, desta vez não por rebeldia, mas pelos rumos da vida, minha mãe pacientemente me chamou pra conversar e me fez perguntas. "Como você vai se sustentar?"."Você vai morar com quem?"."Mas que emprego você vai arrumar?".

Pô, é simples! Vou arrumar um trabalho, morar com a fulana (20 anos mais velha que eu e mais tarde, descobri, profissional do sexo) e arrumar um trampo de auxiliar administrativo.

Sábia mamãe me disse: "Você não nasceu para trabalhar num escritório fechado, o dia inteiro atrás de uma mesa."

E não é que é? E tem horas que me dá um desespero enorme, uma vontade de sair correndo, de me comportar, supostamente, como se eu tivesse 5 anos, mas bem consciente dos vinte e tantos, dá vontade de chorar e eu fico olhando lá pra fora, um dia lindo pra caramba, eu perdendo de certa forma meu tempo, por ainda não estar desempenhando minhas funções pela tranquilidade momentânea e eles sabem de tudo isso, mas, é preciso cumprir o horário. Odeio essa: cumprir o horário. É tão...sala dos professores do Estado...

Tem gente, a maioria das gentes, que consegue suportar isso e bem. Eu não. Eu sou quase uma pessoa que precisa de cuidados "especiais". Que se atrasa para ter o gostinho de uma pequena e ilusória subversão, que some no meio do expediente, fugindo por cinco minutos, que pede para sair mais cedo ou chegar mais tarde, de forma delicada e constante. Mas poxa...minha chefe é tão gente boa e compreensiva, que ela percebe tudo isso e nem liga!

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Janela Indiscreta

Moro num lugar meio cortiço. Dá pra ouvir tudo o que acontece aqui e no prédio ao lado. É uma loucura! Nesse momento ouço alguém em prantos. Já ouvi brigas homéricas de casais, degladiações entre cantoras ruins, cada qual no seu apartamento, encontros felizes, mãe apavorando o filho na hora da lição de casa. Me sinto dentro do "Janela Indiscreta". É uma delícia espiar o privado. Mas em alguns momentos gostaria de não ter ouvido certas coisas...
Num dia, enquanto fumava um cigarro na lavanderia, avisto minha vizinha:
- Oi vizinha!
- Oi, tudo bem?
- Tudo.
- Tá gostando daqui?
- Tô.
- Bom, né?
- É. Muito bom.
E num momento de surto:
- Vizinha, eu preciso te falar uma coisa.
Me olhou com cara de "ué?":
- Olha, eu não fico te espiando, sabe? É que o pessoal daqui não deixa eu fumar lá dentro e, às vezes, tenho a impressão de que vocês meio que se escondem de mim.
Ela, educada, lança um sorriso amarelo:
- Ah, é...eu também fumo, sei como é...
- Vizinha, eu não sou louca!!!
Ela entrou. Acho que me entreguei. Por mais que eu não queira espiar, de vez em quando esta lavanderia-varanda-terraço me proporciona atrações incríveis. De camarote. Enquanto isso, eu e todos os meus vizinhos, fingimos não nos conhecermos. É risível.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Amor

O amor é um milagre. Enamorados falam línguas diversas. É como um diálogo entre o idioma grego e chinês. Os amantes gritam ao mesmo tempo para fazer-se entender um pelo outro. É um absurdo sem fim. Mesmo assim, ouso dizer que um dia já amei.

sábado, 6 de junho de 2009

Hormônios...
Na TPM sou capaz de ir ao Procon, liderar uma passeata de cinco pessoas para cobrar trocos de três centavos, brigar com aqueles que normalmente tenho medo, voltar a ter os peitos de dez anos atrás, ir do ódio profundo ao amor extremo em frações de segundo.
Quanto mais os peitos incham, mais a depressão aumenta. E quando acho que, finalmente, vou explodir, bem...enfim...dá tudo certo no final. E só acaba quando termina. E depois que termina, começa tuuuudo de novo.

terça-feira, 12 de maio de 2009

Uma semana passada com uma angústia sôfrega, aparentemente sem razão. Razão não há mesmo, principalmente no terreno das angústias e essa é uma proposição à qual a existência torna-se mais dialética e conflitante. Razão. Paixão. Estava sentindo falta do passional. Minha situação clínica torna mais difícil lágrimas rolarem, mas andava sentindo tanta falta da vertigem...Um buraquinho no peito, tapado com massa corrida, pronta a esmigalhar-se. Só faltava o estímulo.
Alguém estimulou-me a isso. Obrigada! Hoje caiu uma pequena chuva dentro de mim e me sinto aliviada, refrescada e pronta pra continuar seguindo.

terça-feira, 21 de abril de 2009

Respostas do corpo

Hoje vi alguém que está para morrer. É iminente. Mas essa pessoa não sabe disso. Todos ao seu redor sabem. Menos ela...Não sabe oficialmente, porém sente seu corpo definhando com o passar dos dias. Em, somados, quinze minutos de conversa tive algumas impressões, impressões de quem vem de vez em quando, impressões de alguém que sempre será uma garotinha nas lembranças de quem vai.
Ela tem inapetência. Não come nada, vomita tudo, está magrinhaaaaa...Ela se recusa a comer. Pensei nestes porquês. Todos os médicos dizem a ela que está ótima, no entanto...”Eles mentem pra mim, sei que não estou bem, como é possível que alguém esteja bem sentindo o que sinto?” Todas as suas dores, sua depressão, cada vez mais severa. “ Deixa ver se entendi o que a senhora está sentindo. Dói quando alguém conversa com a senhora? Quando ouve as pessoas conversando? Quando alguém lhe toca?”, ela concordando. “Mas não é uma dor no corpo, né? È no corpo, mas não é, né?”
“É isso mesmo, é tristeza, é muita tristeza.”
Será que se alguém revelasse seu verdadeiro estado, ela não se sentiria mais confortável com o “mistério” que há em seu próprio corpo?Por fim, pediu que eu orasse por ela. “E o que a senhora quer que eu peça a Deus?”. Respondeu impassível: “Que ele me leve”. Ainda perguntei se era a única solução e ela deixou no ar que sim. Diante de tudo isso, atenderei ao seu pedido. É o máximo que posso fazer em minha pequenez diante deste incômodo, que para ela, é viver

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Momento High Fidelity

Imaturidade. Feridas. Mágoas. Cansaço. E de repente...passa. E até articular, fazer-se compreender, é um saco. Essas coisas são um saco. A intimidade é um saco. A intimidade é encantadora, porém mergulhar na subjetividade de alguém e depois tentar afastar-se dela, ai, esse processo é uma porra de um pé no saco. E volta o cansaço. Menos potente, mas volta. Até arfo, só de pensar. Voltando ao assunto dos vinte e cacetada, aprendi algo. Ou acho que é um aprendizado. Tem horas que é preciso ser preciso. Reto, objetivo. Existem determinadas conversas que não levam a lugar algum. Existem momentos em que o melhor é o não dizer. É o não se fazer presente. É tipo um pause. A gente sabe. A gente sabe que não existe o “nunca mais vou falar com você?”, “nunca mais vou te ver?”, puta merda, como isso enche o saco! Vamos esperar o tempo passar, Manoel Carlos às vezes acerta. A mulher A que é irmã de B e casa com o homem C, vive com ele sete anos, irmã B fica viúva, o casamento de A entra em crise, eles se separam. Homem C pega a irmã B, irmã A encontra o homem de sua vida que era namorado de sua melhor amiga que morreu, todo mundo casa e aparecem super bem resolvidos no final da novela, bebendo um vinho e rindo do passado. Bem, o problema até “resolver-se”. Mas a gente resolve...de um jeito ou outro, resolve.
Como Cristina, eu sei o que não quero. Não quero mais horas a fio de devaneios insensatos, prolixos e... arfantes.
P.s.: Onde será que o verbo "arfar" estava escondido no meu cérebro?

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Trilhas

Tô aqui ouvindo Weezer. Como já disse alguém um dia, uma banda de molequinhos gritando. Que maravilha! Esguela, gente! Me lembro da banda de uns amigos que tocavam bêbados e mal pra caramba. Meu momento particular de êxtase era quando eles cantavam uma música que, não sei o nome, mas começava com "Oh Yeah!All right!" e ficava tudo legal naquela hora. Principalmente quando subiam dois amigos tão bêbados quanto o resto, para cantar. E eles esguelavam...e era demais!
Meu álbum preferido é o Pinkerton, adolescência pura. Adolescência derradeira, dos vinte e pouquinhos. Pinkerton me anima pra fazer coisas chatas como faxina, comida, lavar louça, roupa. Assim como Ultraje à Rigor, super serelepes.
Quando era pequena ficava me imaginando fazendo videoclipes secretos. No carro, viajando no banco de trás, ouvindo Cindy Lauper, ninguém imaginaria que eu estava numa super produção.
Hoje também faço videoclipes secretos, às vezes nem tanto. Desejaria ter participado da primeira cena do Hair, cantando, estrelando Aquarius. Dancing Queen também não cairia mal, Only Yesterday, até mesmo Jackson´s Five.
Bem, quem não fantasia essas loucurinhas?...

terça-feira, 14 de abril de 2009

Estou ótima!

Estou ótima! Estou aprendendo a ficar sozinha. Estou me curtindo. Estou conseguindo me suportar. E minha mãe disse: Você é muito nova para conseguir se suportar. E a sem vergonha tem razão. E um outro amigo cretino disse: O que, você ficou na internet dois dias seguidos “se curtindo”? É, eu fiquei. Você está muito carente. Imagina! Fiquei no msn esperando uma alma viva e agradável entrar, no orkut aguardando um recado, de jeito nenhum, não estou carente, estou deixando as coisas fluírem. Mas sozinha, hummm, sozinha ta foda.
Dizem que dos vinte e cinco aos trinta a vida é um saco. Todo mundo acima de quarenta fala isso. Aliás todo mundo em algum momento vai reclamar de qualquer fase da vida. Principalmente da imediatamente anterior. Bem, as periodizações e conceitos sobre o que são “fases da vida” variam conforme o interlocutor. Mas, voltando aos vinte e cinco, bem, aos vinte e cinco parece que ficamos pessimistas e rabugentos, que a vida ilusoriamente se estabilizou, o que é uma grande mentira. Nós, de mente aburguesada, acreditamos que somos bons de cama, prodígios infalíveis e insubstituíveis, petulantes, ironicamente baratos, prafrentex, bonitos. Quando saímos pro mundão de cão...aaaahhh! A coisa muda de figura, meu bem. Vai pagar de modernoso pra ver! E então, temos que nos dobrar a um terrível dogma cristão. Humildade. Ê palavrinha...Quando se fala de alguém pobre, geralmente nos referimos a uma pessoa “humilde”. Que merda de palavra é essa? Se formos levar em conta essa conotação, chegamos à conclusão que o “humilde” é um ser desprovido. De que? Bem, talvez aos vinte e cinco sejamos desprovidos de sanidade.
Quando eu tinha quinze e era meio “ louquinha”, meu pai me disse que a crise existencial que eu tava tendo, ele teve com trinta. Será que estou na crise dos cinqüenta?
Que ridículo...
Solidão? Que é isso! Não à toa estou postando no blog, pra ver se alguma alma viva me ouve! E comendo chocolate loucamente.