sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Bicho indomável

Quando eu tinha uns 17 anos, mais uma vez, ameacei minha mãe que iria sair de casa. Até aí, a minha lembrança mais remota de uma cena dessas, remonta a uns cinco anos de idade. Queria uma coisa. Não me davam. E eu dizia que iria fugir. Um dia meu pai abriu o portão e disse: "Vai". Chorei. Não fui. Pequenininha.

Na última decisão, antes de sair mesmo de casa, desta vez não por rebeldia, mas pelos rumos da vida, minha mãe pacientemente me chamou pra conversar e me fez perguntas. "Como você vai se sustentar?"."Você vai morar com quem?"."Mas que emprego você vai arrumar?".

Pô, é simples! Vou arrumar um trabalho, morar com a fulana (20 anos mais velha que eu e mais tarde, descobri, profissional do sexo) e arrumar um trampo de auxiliar administrativo.

Sábia mamãe me disse: "Você não nasceu para trabalhar num escritório fechado, o dia inteiro atrás de uma mesa."

E não é que é? E tem horas que me dá um desespero enorme, uma vontade de sair correndo, de me comportar, supostamente, como se eu tivesse 5 anos, mas bem consciente dos vinte e tantos, dá vontade de chorar e eu fico olhando lá pra fora, um dia lindo pra caramba, eu perdendo de certa forma meu tempo, por ainda não estar desempenhando minhas funções pela tranquilidade momentânea e eles sabem de tudo isso, mas, é preciso cumprir o horário. Odeio essa: cumprir o horário. É tão...sala dos professores do Estado...

Tem gente, a maioria das gentes, que consegue suportar isso e bem. Eu não. Eu sou quase uma pessoa que precisa de cuidados "especiais". Que se atrasa para ter o gostinho de uma pequena e ilusória subversão, que some no meio do expediente, fugindo por cinco minutos, que pede para sair mais cedo ou chegar mais tarde, de forma delicada e constante. Mas poxa...minha chefe é tão gente boa e compreensiva, que ela percebe tudo isso e nem liga!

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Janela Indiscreta

Moro num lugar meio cortiço. Dá pra ouvir tudo o que acontece aqui e no prédio ao lado. É uma loucura! Nesse momento ouço alguém em prantos. Já ouvi brigas homéricas de casais, degladiações entre cantoras ruins, cada qual no seu apartamento, encontros felizes, mãe apavorando o filho na hora da lição de casa. Me sinto dentro do "Janela Indiscreta". É uma delícia espiar o privado. Mas em alguns momentos gostaria de não ter ouvido certas coisas...
Num dia, enquanto fumava um cigarro na lavanderia, avisto minha vizinha:
- Oi vizinha!
- Oi, tudo bem?
- Tudo.
- Tá gostando daqui?
- Tô.
- Bom, né?
- É. Muito bom.
E num momento de surto:
- Vizinha, eu preciso te falar uma coisa.
Me olhou com cara de "ué?":
- Olha, eu não fico te espiando, sabe? É que o pessoal daqui não deixa eu fumar lá dentro e, às vezes, tenho a impressão de que vocês meio que se escondem de mim.
Ela, educada, lança um sorriso amarelo:
- Ah, é...eu também fumo, sei como é...
- Vizinha, eu não sou louca!!!
Ela entrou. Acho que me entreguei. Por mais que eu não queira espiar, de vez em quando esta lavanderia-varanda-terraço me proporciona atrações incríveis. De camarote. Enquanto isso, eu e todos os meus vizinhos, fingimos não nos conhecermos. É risível.