terça-feira, 24 de novembro de 2009

Beijo terno de despedida

Foi. Morreu depois de dois anos de torturas incessantes, parece que aliviada e irreconhecível em seu semblante. Vi de longe, que não gosto de corpos sem vida, eles não fazem muito sentido pra mim. Jamais chorei por ver um chegado morto. Chorava pelo impalpável, não pelo corpo. Que o corpo sem vida, é só um corpo. Me faz pensar se existe mesmo ânima, alma, prana e todas essas coisas.

E as tais das marcas. Sim, era uma velhinha de 90 anos, racionalmente todos sabiam, isso tornava as coisas mais fáceis. Mentira. Em alguns momentos, de repente as marcas se faziam presentes, chorávamos com força, emocionados, sei lá por que, talvez pela celebração de uma existência em nossa memória.

A celebração foi o motivo do velório. Uma celebração de vida. Foi numa igreja antiga, a que a morta e suas irmãs começaram a frequentar de meninas, quando chegaram de Jundiaí pra cidade grande. Essas irmãs, talvez sejam as mais antigas frequentadoras desse local, o que as angustia. Por não verem mais os amigos, amores e desafetos, a maioria esmagadora já defunta. Quanto será que falta para chegar a hora? Vejo minha avó se movimentando o tempo inteiro, de olhos bem atentos a qualquer detalhe, para não perder nadinha, nadinha desse mundo, dessa vida que pulsa de forma mais que vigorosa nela, mais vida do que qualquer um que conheço. Recolhe todo o tempo as migalhinhas das pequenas coisas e tece uma colcha, entrelaçando-as em suas memórias. Meus olhos marejam de pensar. Emocionada pela vida, não pela suposta proximidade da morte.

O velório teve cheiro também de infância, um paraíso de expectativas perdido no tempo. Pois aquela igreja também frequentei quando pequena, eu pagã e satisfeita com isso, mas frequentando pra agradar a vó, sempre querendo me converter. Não desiste. Mas ouço com o peito aberto e grata aos céus por ter a melhor avó do mundo.

Tias, tios, primos que a vida afasta. Com alguns ainda guardamos uma cumplicidade bem no fuuundo, com outros nos comportamos como desconhecidos, o que é mais que estranho, depois de ter trocado a mais profunda intimidade pueril.

E por falar em infância, neste dia mergulhei nas histórias das minhas velhinhas, todas elas ainda muito meninas, com gestos e trejeitos cúmplices conservados até hoje. As falas do pastor foram de se dispensar, ele estava piorando o que para um cristão, deveria ser motivo de comemoração: a passagem para o tal do paraíso. Mas as homenagens prestadas pelas irmãs...essas...quanta luz!

Não repito aqui, algumas partes esqueci, mas gostaria muito de ter eternizado este momento, por mais mórbido que isso possa parecer. Foi um encontro de memórias e perspectivas, recordações engraçadas e dramáticas. Um encontro comigo mesma e com fendas que eu nem mesmo me lembrava.

Foi uma baixa no time das irmãs, tão unidas. Mas, repitindo o que uma delas disse: "Continuamos aqui, em quatro (depois de perderem quatro), felizes e unidos como sempre fomos, festejando e comemorando a vida como sempre fizemos".

Lágrimas de alegria por ter conhecido tais pessoas.