quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

No busão 2

Em São Paulo, algumas coisas muito loucas são absorvidas como corriqueiras.
Choveu. De novo. Normal. Só que ninguém entendeu isso ainda. Clima tropical de altitude, com verões úmidos e invernos secos. Terreno geológico antigo, rochoso, o que dificulta ainda mais a permeabilidade do solo. Não fosse o mar de concreto, tudo bem. Não fosse a canalização de rios e córregos, tudo bem. Não fosse a quantidade de lixo produzido pelos habitantes, tudo bem também.
E pra dar jeito nessa porra?...

Vão vendo...as pessoas vão se afetando e nem percebem. Deu seis da tarde. Saí do trampo respirando fundo e tentando manter uma certa serenidade. Chuva é chuva, oras! O resto é que é o problema. Entro no busão. Assim que ele deixa o ponto, cheio, raspa no tronco de uma grande árvore, que cai. Isso aí. Caiu em cima do busão e bloqueou metade da avenida 'pans'. "Alguém se machucou?". Não. Vambora então. Quem ficou pra trás se fodeu.

O banco das comentaristas. Que refletem sobre a catástrofe ambiental da cidade e se orgulham de separar o lixo. Que, provavelmente, nem sabem aonde vai parar. O que é feito com ele. Não prestam atenção na quantidade que produzem. Comentário final: "Ainda bem que o nosso ônibus passou da árvore". Sentadas nos bancos especiais. Adoro esse tipo de paulistano. Ainda vão me causar um AVC.

Mas, o que foi a queda de uma árvore, perto do que estava por vir? Depois de uns 40 minutos, pra percorrer uns três pontos...

O busão era daqueles sanfonados pra transportar bastante gado. Eu tava na boiada dos fundos. Ouvimos uma gritaria e o ônibus parou por alguns poucos minutos no ponto. Vi uma garota pequena, lépida e arranhada vindo em nossa direção. Atrás dela, uma moça determinada. A (continuar a) dar porrada nela.

A lépida é tinhosa. Enquanto a determinada a xinga de vadia pra baixo e a ameaça com a possibilidade de um b.o., ela ri debochada e a chama de louca. Determinada vai pra cima dela de novo. Um japa solicito entra no meio e toma arranhada também. Um gordão sai do fundão e começa a dar uns gritos, o que acalma as inflamadas.

Lépida desce e alguém segura determinada para o pior não acontecer. Determinada diz: "Marquei bem a tua cara, sua vadia!". Adoro quem marca a cara dos outros! Quanta potência! Alguém comenta lá no fundão: "Mano, a mina apanhou pra caralho!". Gargalhadas coletivas. O gordão volta pro lugar, todo bonitão: "Alguém tem que segurar essas mulhé".

Determinada, como se nada tivesse acontecido, puxa um espelhinho da bolsa e começa a retocar as avarias sofridas. A chapinha, impecável, mesmo com os puxões de cabelo.

Provavelmente as duas se encontrarão, casualmente, num kilão do bairro, num ponto de ônibus, ou num happy hour...

Pensei que, puta que pariu, mal começou a viagem, coméqueisso vai acabar...muito medo.
Mas 15 minutos depois, ninguém mais se lembrava disso. Por que chover é uma catástrofe absurda, mas isso...bem, isso é normal...

"Nunca diga: isso é natural (...)"

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

No busão

Pra ir ao trabalho pego um busão bem cheio. Argh! E, para complementar o que pode-se chamar de "ritualzinho matinal do paulistano comum", vou ouvindo o noticiário no rádio. Sabe que isso me dá um prazer muito grande?Ouviria AM, mas não pega. Heródoto Barbeiro, você é meu grande companheiro e nem sabe disso...e eu até rio das suas piadinhas...
Na sessão compulsória de alongamentos em barras do coletivo, que poderia ser incluída nos planos de ginástica laboral das empresas, ouvi a coluna de Gilberto Dimenstein, que particularmente não me agrada nada. No entanto ele dizia sobre um relatório realizado pela fundação Victor Civita intitulado "Atratividade da Carreira Docente no Brasil".
Resultados óbvios: Menos de 2% dos estudantes ingressariam em cursos superiores de licenciatura. Entre alunos das escolas particulares, o número beira a zero.
Fiz um curso de licenciatura. Na época notava o seguinte: dentro da universidade pública o perfil socioeconômico dos alunos destes cursos eram bem inferiores aos de classe média alta das carreiras mais tradicionais e que "perpetuam" a dinâmica do giro de capital que se encerra nesta mesma classe.
Tinha e tenho a nítida impressão de que a maioria dos alunos entravam em licenciatura por não conseguirem ingressar em outro curso de sua escolha, mais concorrido e "garfado" pelos que receberam uma educação mais "adequada", pelo menos adequada ao concurso vestibular.
A coisa começa daí. Percebi ao longo do tempo e da minha antiga carreira, que a própria formação cultural de base dos professores já é deficiente. Em algumas escolas de classe AAA, professores podem tirar licenças para viagens e cursos que contribuam com sua formação contínua. Esses mesmos professores, são aqueles que provavelmente estudaram nesta mesma escola e por essa razão (e claro, por sua competência) , foram aceitos lá. É o caso, por exemplo, do Porto Seguro, Santa Cruz, Arquidiocesano, etc.
Na sala de aula de colégios particulares AA, vi o conflito da deficiência da minha própria educação versus a de meus alunos. Falava de coisas que nunca tinha visto pessoalmente, como por exemplo, as catedrais góticas e as obras da Renascença. Coisas estas que eles, desde meninos, já conheciam por conta de suas viagens internacionais. Me sentia muito mal. Às vezes até mentia que já tinha ido, visto, etc...
Ainda não saí do país, mal saí do Estado de São Paulo e arranho no espanhol. Minha formação continua deficiente, por mais que agora eu saiba procurar.
Num outro extremo, percebia na escola pública, que aqueles alunos considerados "brilhantes" (por fazerem a lição de casa direitinho), nadavam num oceano com boinhas de braço, sem direção. Nadavam até certo ponto, depois morriam na praia. Enquanto morrem na praia, os meninos da classe A triunfam.
Mudei de área. Desde que me formei, já queria mudar de área. Pulei fora. Embora o convivio com os meninos fosse bastante gratificante e divertido, ou não me sentia capaz de continuar, ou me sentia desvalorizada demais. Agora sirvo ao grande capital. De vez em quando tenho insônia, mas meus tempos panfletários se foram. Acredito na micropolítica. Às vezes acho que, finalmente, me "rendi". E também acho que trabalho tanto para , finalmente, ver as coisas que nunca vi. Todas elas!