quarta-feira, 9 de novembro de 2011

O óbvio

Eu só vou falar do óbvio aqui, hoje. Aliás este blog é para falar disso apenas.

Quando um ser sensível ao outro, preocupado com as desigualdades sociais, com a convivência em sociedade, com atitudes políticas cotidianas, com o descortinamento das coisas que nos oprimem, resolve sair a público, é acusado de 'esquerdista' por 'vejistas' ou coisa pior. Então, se tudo isso é ser de esquerda, senhores, eu sou de esquerda.
'Vejistas' são seres que tinham tudo para ter uma existência interessante. No entanto são guiados ideológicamente pela Grande Revista Fabricadora de Opiniões Chulas. 'Vejistas' clamam por liberdade de expressão e quando você vai em alguma baboseira que eles escrevem e opina, se a sua opinião for divergente, eles apagam o registro. HAHAHAHAHA!
Estou cansada de tudo isso. Muito cansada. Minha veia mais radical roga orações ao finado Estado Bolchevique. Que Deus conforte o coração de Lênin.
Deus? É. Que a gente vai ficando véia e começa a apelar para tudo. É Deus, astróloga, I Ching, é terapeuta. É tudo isso e mais um pouco para deixar a existência menos sufocante.
Porque, gente, tá foda. É opressão até na hora de atravessar a rua.
Estes dias, tava relembrando que, quando não morava na Metrópole que 'Tem Tudo', era bom demais. Eu via as correntes de longe. Reconhecia-as de pronto. Não as carregava nas costas sem saber a procedência do peso.
Agora, a dinâmica das relações em-si-mesmadas da cidade grande está mais que preocupante. Fui a uma viagem de formatura de uns alunos meus, dias atrás e, adivinha quem deu trabalho? A turma agressiva, mimada, desrespeitosa, que ria da favela que sustenta a maravilhosa ilha da fantasia em que ficamos hospedados. A turma de São Paulo e Rio de Janeiro, majoritariamente branca e sem a menor atenção com os negros que os atendiam prontamente. Nem notaram essa divisão de posições por cor - os que servem e os que são servidos. Nenhuma atenção ao outro.

Enfio o meu diploma no cu e saio cabisbaixa.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Boletim Revolução de Saturno

Uma astróloga disse que Saturno está bem em cima da minha cabeça neste momento. Eu bradava "Vem nimim!" e batia no peito. O tal do Saturno parece que traz umas mudanças de paradigmas na vida de todo mundo. Sei lá, na verdade, só assenti com a a cabeça e fingi que entendi.

Esses dias descobri coisas novas. Senti coisas novas. Lembrei de coisas antigas que se re-atualizam.

Primeira delas: andei de avião. O friozinho na barriga é demais. Ria de mim, satisfeita, por ser tão caipira. Mas quando o céu encontrou o oceano, chorei.

Segunda delas: descobri que não sou do circo. Por que fui pular do tal trapézio e quase morri. Trinta anos de idade e não saber que se tem medo de altura, é demais pra cabeça.

Terceira delas: que jiló frito em rodelinha fininha é bom!

Relembrei: daquele momento que a gente é pequenininha (o) e descobre que a mãe morre. Aí a mãe vem e fala que vai demorar bastante tempo, ainda. E a gente vai vivendo tranquila (o). Mas descobri que tem mãe que vai antes do combinado.

Vamo lá fazer uma sopa de legumes, vai...

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

O sonho

Para ler ouvindo 'O sonho', de Egberto Gismonti. De preferência na voz de Elis.

Numa festa. Com íntimos-desconhecidos.Visões vertiginosas. Embriagada estou sem ter bebido. Foi a vida mesmo. Tento convencer a todos de que não bebi. Cambaleio, tenho a vista turva, abraço esses companheiros que nunca vi, amoleço, despejo meias-verdades.

A noite é quente. Vou para a rua, cheia.

Num parapeito. Láááá embaixo, um concerto. Guaxinim, ao meu lado interage. Ela toca instrumentos que nunca tocou realmente. Tenho medo de cair. 'Toca aquela!". Ela toca. O parapeito despenca e dependura-se como um trampolim. Agarro em suas margens e grito 'Odeio esses sonhos em que a gente periga de cair'.

Mas agora estou segura.

Num quarto com mais íntimos-desconhecidos. Há muito tempo íntimos. Essas pessoas compartilham de um passado que me é tão bem guardado, que desconheço. Nos amamos, todos. Descubro tios, primos, uma parentada que me conhece desde pequena. Contamos histórias, rememoramos, nos emocionamos. Saímos do quarto. A tia já morta, aparece: 'Agora estamos seguros, eles já foram'. E esperamos um corpo-defunto que não sabemos de quem é. E ele também não chega.
Começamos a assistir videos dos velhos tempos. Olho um íntimo-conhecido quando mais jovem, na fita, me espanta a semelhança: somos iguais.
Eu digo que sou ele amanhã, com barba e tudo. Ele ri. Saímos abraçados andando. Começo a chorar. Dizer o indizível. Soluçar e gritar. Tem algo saindo de dentro de mim. Grito, na verdade, o inominável.

"Acordado estou. Choro."

quarta-feira, 20 de julho de 2011

A desagradável arte de se fazer presente desnecessariamente

Algo que acho extremamente desagradável: pra mim e pros outros. Entenda-se que acho isso desagradável hoje, portanto se alguém tiver alguma historinha do passado, relacionada a mim e ao que vou escrever, digo de antemão que eu mudei!

Bem, quando tinha vinte e pouquinhos anos, havia terminado um namoro, engatado outro e queria tudo ao mesmo tempo. Fiz uma coisa muito feia. Comecei a punkear a namorada do meu então ex-namorado. Aparecia na casa dele em horas estranhas, ficava ao lado do casal nas festas, chamava-o para tomar um café descompromissado. Até que a coitada desistiu. E saiu falando por aí que nós tínhamos sido feitos um para o outro, que era inevitável. E isso me fez lembrar que eu tinha um novo namorado! E aí caí em mim. "Caramba, que foi que eu fiz?".

Esta é apenas uma das histórias do meu passado negro.

O resto eu tenho vergonha de contar.

Desde já peço perdão. Os anos me fizeram uma pessoa melhor.

Aí vem esses sites de relacionamento. Sim, eu já causei no orkut. Eu fiz da vida de uma garota um inferno (perdão,perdão,perdão!!!).
E as coisas parecem ficar muito visíveis antes da gente descobrir as políticas de privacidade, não? Que tiram a graça do negócio, vamos combinar.

E aí, eu stalker, fico vendo um monte de coisas por aí. E percebo como a desagradável arte de insistir em se fazer presente, mudou de roupa.

Exemplos:

'Fulano mudou seu status de relacionamento para solteiro'
Aí vem uma louca e curte. Fiquei com vergonha alheia.

'Frases de efeito para aparecerem nas atualizações de ex'
Sentimento de pena.

'Ex passou um tempão namorando e depois que terminou, está se sentindo solitário, carente e fracassado, resolve te adicionar'
Recuso educadamente.

'Ex fica comentando no mural dos seus parentes e amigos, menos no seu'
Quer um abraço? Morra.

Enfim, sites de relacionamento são mais reais do que as pessoas inteligentes imaginam. Então o risco de tomar um soco de um desconhecido no meio da rua cresce.
Sen-si-vel-men-te.

Fi-ca a di-ca.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Uma carta de amor

Hoje te vi, você quase nonagenária, menina. E te vejo menina desde que eu me conheço por menina. Desde que era picada pelas pulgas que você, menina ofendida, ignorava em tua casa. Neste momento te amo com fúria, raivosa pelo sentimento que despertas em mim. Faze-me uma pessoa melhor. Desde que deixei de ser menos imbecil percebi: saímos ao mundo, fazemos um monte de idiotices conosco e com os outros e, eventualmente, quando voltamos ao teu inferno-paraíso, o teu teu, tu nos olha como se fôssemos as melhores pessoas de todos os tempos. E somos. Nessas poucas horas que passamos contigo. Aliás, te culpo por me fazer o tempo passar bem mais devagar do que deveria , na tua companhia e você ir se despedindo do mundo sem percebermos.

Você, tão terna. E tão inquieta com a vida que me faz querer passear como tu passeias. Me faz querer olhar pela janela do coletivo, procurando e encontrando sempre algo novo a se apegar. A menina. Lá vai a menina com o cartão do idoso passando pela catraca. Você me fez amar a velhice mesmo odiando-a. Você me fez não ter medo dos anos. Você me exauriu uma energia neste momento, que termino este parágrafo quase que em colapso.

E vendo-te perder tua última irmã-menina é desolador. Vendo-te sentir-se só demais nesse mundo incompreensível, mais só, cada vez e cada vez mais, me faz sentir-me uma péssima pessoa. Por que vejo tua memória esvaindo-se nos velórios de outros velhos, se você, tão vivaz e com a mente cada vez mais lívida, implora por mais um fio de vida?
Não quero que a tristeza te leve. Você é a MINHA pessoa. Egoistamente MINHA. Você transcende certo grau de parentesco. Você é minha companheira de vida.

terça-feira, 28 de junho de 2011

eumebasto.com

Para quem tem o verdadeiro gosto pela instabilidade, os meses passaram-se mornos. Uma novidade. Não consigo mapear de onde veio relativa serenidade perante a vida. Sim, consigo. Lembrei-me do dia em que acordei, depois de quase desistir das coisas cotidianas de que não desistiria e pensei: "É isso aí...".
Que culturalmente almejamos o linear, porém o embate entre a reta e o vertiginoso da vida provocam um sofrimento atroz. Decidi largar mão de tentar controlar as coisas. Às vezes até mesmo de querer encontrar um sentido nelas. Não que tenha conseguido. Apenas desejei me harmonizar com o caótico. Esse agora é o meu 'compromisso'. Compromisso com uma ilusória sanidade num mundo que é "uma charrete que perdeu o condutor", numa baita ladeira.
Sempre me senti uma espectadora do mundo, sem muita vontade de participar desse delírio todo. Tanto que até hoje, é difícil saber do que gosto. Não, me lembrei do que gosto. Já escrevi neste blog. Mas eu sei mais do que não gosto. Isso eu sei.
E sei também que nesse mundo composto por levianas efemeridades só nos resta uma pequena ilha de tranquilidade, um terreno bem pequenino que delineia nosso corpo (Bidau, eu finalmente entendi).
Por muitos anos eu tive insônia. O estar sozinha num quarto escuro era terrificador. Era muita coisa minha, que sozinha, não conseguiria digerir. Era coisa demais.
Hoje fiz as pazes comigo mesma. Jogamos até paciência.

sábado, 9 de abril de 2011

Show de calouros

Depois de uma espécie de biscoito da sorte me dizer que eu sempre estou na mão de um "outro", seja lá quem ele for, para delegar-lhe a responsabilidade de pensar em minhas certezas, nesta semana, passei por duas bancas avaliadoras.

A primeira, foi silêncio sepulcral e uma leve antipatia. Foi num dia em que eu estava afetada por hormônios e por alguns dissabores que fazem parte. Não deu. E, pensando no "biscoito da sorte", eu juro que gostaria de saber onde eu errei. Por que, não tendo certeza de nada nessa vida e assim, vivendo suspensa, faço o que faço meio que por acaso. E nunca me convenci que faço direito.

A segunda, foi mais amistosa. Me senti mais à vontade para falar aquilo com o qual não me comprometi. Fiz um juramento no dia da formatura e nem me lembrava deste momento. A recordação veio quase seis anos depois, por acaso também.

Mas eu queria muito que alguém me dissesse: "Você falou merda aqui ou ali...". Porém no mundo cão, as pessoas não tem essa "obrigação". A de ajudar o outro a ser uma pessoa melhor.

No fim, desabafei: "Estou me sentindo, nesta semana, participando do Ídolos."

No "Ídolos" da vida, gente.

E vamos ver se passei...

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Tremor

O negócio carcomendo aqui dentro por esses dias.

A boca tremendo.

Mas eis que no meio do caminho, encontro um espírito afinado com o meu. Um menino de dezesseis anos com problemas de gente grande. E ele sabe disso. Ele sabe também que não tem volta. Ele sabe que se transformou em existência. Porque tem gente que não é gente. É mais que isso, é existência. E não tô falando de Tirandentes ou Pedro Álvares Cabral. Tô falando existência que é tão escurraçada de uma lógica habitual, que baila sobre a vida na pontinha dos pés. Não que ficar na pontinha dos pés seja fácil. Afinal, pé de bailarina é fraturado, calejado, cheio de esparadrapo.
E a pergunta: o que vamos fazer por você, menino, já que o que a sociedade cobra é que, enquanto você não tem dezoito anos, deve ser cuidado e não cuidador?
Isso tudo é mentira das mais descaradas.

Menino me diz que, qual a razão de sua vida? Eu respondo que demorei pra descobrir que a vida tem lá suas delícias.

Menino me agradece, mais uma vez e digo, mais uma vez, para ele não me agradecer.

Menino me diz que me agradece, porque no meio de sua loucura, encontrou alguém que já passou pelo que ele passou e o compreende muito bem.

Dou um abraço no menino e lhe digo que uma das delícias da vida, são os encontros que ela traz, sorrateira.

Ele me fez lembrar disso.

Amanhã talvez eu vá menos trêmula, trabalhar.

sábado, 19 de março de 2011

Parece que minha cabeça está de licença.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Só mais um pouquinho

Mesmo sendo uma 'lembradora' por ofício, não sou nada afeita a saudosismos.
No entanto, hoje, finalmente consegui assistir a um capítulo da novela Vale-Tudo.
E vendo Odete Roitman vociferando pérolas cáusticas, dei-me licença para voltar no tempo. E a um sentimento único. Trago-o comigo até o momento. E é uma paz muito grande. Uma sensação de plenitude e tranquilidade.

Lembro-me meio que decor, de um trecho d'um livro legal: "Só somos felizes, realmente felizes, quando é para sempre e esse tempo só existe na infância...", algo assim. O autor descreve então, os maiores momentos eternizados de sua meninice. Voltei aos meus. Mas o curioso, não é lembrar de fatos, mas senti-los. Mesmo sabendo desde aquela época, quem matou a memorável vilã. Isso não tem importância nenhuma, embora tenha sido uma cena que me chocou demais. Lembro-me do cheiro do piso de lajotas do quintal e do seu frescor em dias de calor. Deitava neles. Era puro devir. Só havia o presente para uma existência tão recente.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

A roda

Às vezes tenho a impressão de que minha percepção de tempo não é linear e sim circular. Cíclica. Ao mesmo tempo, me engano eventualmente, ao pensar no contrário. O tempo linear, em nossa sociedade, pressupõe 'progresso'. Não gosto disso.

Que esta forma de sentir o tempo, é massacrante demais para nós, pobres humanos... Na nossa sociedade não há lugar para o erro, para a indecisão, para a consternação. Para o frágil, o vulnerável. Evidentemente, só no discurso da assepsia do corpo e da mente. Por que nos nossos pequenos - mas intensos - porões pessoais, depois de uma semana exaustiva de trabalho, a possibilidade de não se fazer absolutamente nada é amedrontadora. O encontro com aquilo que nos torna profundamente humanos, o silêncio do ócio, suscita um certo pânico.

Ontem foi a primeira segunda-feira do ano. E embarquei nessa. E foi terrível! E não conseguia fazer um movimento inverso. Estava me sentindo improducente, com uma listinha de coisas a serem resolvidas. Coisas estas que dependem mais de tempo do que de mim, para serem sanadas.

Ao mesmo tempo, sinto voltar ao começo do ciclo. Todo ano é meio que a mesma coisa: as mesmas questões estão lá para serem tratadas em janeiro. E outras em julho e outras em novembro e outras em dezembro. Sabe que não acho isso ruim? Por que a cada ciclo, sou uma nova pessoa e trago comigo novas experiências sobre novas e velhas questões. Pareço aprimorar-me, ou não, nas regularidades. As novidades são raras. Mas creio pertencer a uma velha escola que respeita o andamento da semana, da lua, do inferno astral, da colheita de uvas, que seja. Com um certo sacrifício, evidentemente. Já que o bailado do salão quer sempre me levar pra dentro da roda.

Respire fundo, Coala. Você está apenas de férias.