sexta-feira, 26 de agosto de 2011

O sonho

Para ler ouvindo 'O sonho', de Egberto Gismonti. De preferência na voz de Elis.

Numa festa. Com íntimos-desconhecidos.Visões vertiginosas. Embriagada estou sem ter bebido. Foi a vida mesmo. Tento convencer a todos de que não bebi. Cambaleio, tenho a vista turva, abraço esses companheiros que nunca vi, amoleço, despejo meias-verdades.

A noite é quente. Vou para a rua, cheia.

Num parapeito. Láááá embaixo, um concerto. Guaxinim, ao meu lado interage. Ela toca instrumentos que nunca tocou realmente. Tenho medo de cair. 'Toca aquela!". Ela toca. O parapeito despenca e dependura-se como um trampolim. Agarro em suas margens e grito 'Odeio esses sonhos em que a gente periga de cair'.

Mas agora estou segura.

Num quarto com mais íntimos-desconhecidos. Há muito tempo íntimos. Essas pessoas compartilham de um passado que me é tão bem guardado, que desconheço. Nos amamos, todos. Descubro tios, primos, uma parentada que me conhece desde pequena. Contamos histórias, rememoramos, nos emocionamos. Saímos do quarto. A tia já morta, aparece: 'Agora estamos seguros, eles já foram'. E esperamos um corpo-defunto que não sabemos de quem é. E ele também não chega.
Começamos a assistir videos dos velhos tempos. Olho um íntimo-conhecido quando mais jovem, na fita, me espanta a semelhança: somos iguais.
Eu digo que sou ele amanhã, com barba e tudo. Ele ri. Saímos abraçados andando. Começo a chorar. Dizer o indizível. Soluçar e gritar. Tem algo saindo de dentro de mim. Grito, na verdade, o inominável.

"Acordado estou. Choro."