sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Encontro/Confronto

Lembrando que, nesse blog, a melancolia é a rainha. Portanto se você que lê isso tudo, não for amigo ou amiga dela, vá ler Gotas de Sabedoria. Publico com orgulho o que um amigo me escreveu: "Parece que tudo o que você escreve está impregnado de uma tristeza indefinível (melancolia?) e isso me seduz. Detesto as figurinhas da felicidade, ou melhor, da facilidade. A felicidade é para os babacas."


A coisa meio que começou num dia que ouvi uma música e desaguei a chorar. Com toda a propriedade, pois afinal, o motivo do choro era uma canção bonita. Naquela hora pensei: "Posso chorar à vontade e ninguém vai me perturbar". Foi exatamente isso que aconteceu. Encontrei um escape no meio de presenças. Assim foi durante os dias. Estranhei quando estava assistindo a um concurso de modelos que se estapeavam e as lágrimas rolando. Assim já era demais!
Quando sentei na poltrona mais silenciosa do mundo, aquela em que não consigo me enganar, pois só tenho a mim, ria de coisas engraçadas que haviam acontecido durante os dias. A graça foi indo embora e a melancolia foi tomando conta de tudo. Então confessei-me: estou chorando por algo que não chorei no momento. Deixei pra depois. A dor ficou muito bem guardada.
E isso é completamente sem pé nem cabeça. Porque essa, já devia ter aprendido. Dor que não tem mais contexto, não tem mais por quê. Você não trata dela e ela fica, sem o menor cabimento. Mas esta, parece ilustrar um negócio mais profundo. Que não tem nada a ver com ninguém, só consigo, chegamos então a um beco murado.
Afinal, se a dor é só sua e está descolada do espaço-tempo, você vai recorrer a quem? Volto à poltrona, me aninho com uma almofada e me graduo ainda mais na arte de falar só e apenas comigo mesma. Quando o tempo de ficar sentada na poltrona termina, pego um chumacinho de lenços e saio andando pelas ruas. O encontro com o concreto, com os olhares. O encontro com a hora marcada. Sem saída para o em-si-mesmado. O confronto.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Mais sobre o tempo

Percebi que, quando ia procurar uma nova morada, fascinava-me o chão vermelho de cozinha. Aquele piso antigo, de casa de boneca. Na verdade, casa de operários, de famílias numerosas, de gente que começa a prosperar lentamente nos anos de 1950. Mal sabia que o tal chão vermelho tornaria-se uma busca. Quando piso num lugar assim, uma sensação de paz me inunda. Vó. O tal chão me remete à cozinha da minha avó. O tal chão me traz com força uma tonelada de memória que não é minha.

Outra coisa que me encanta são os pisos de madeira. E os imortais tacos.

Limpava os cantinhos com chumaços de poeira e uma ideia me pegou de sobressalto: a de que estaria limpando poeirinhas antes nunca alcançadas por ninguém. Poderia estar retirando daquela composição um detalhe único. Uma poeira de quarenta anos atrás, cinquenta. E a sensação, mais uma vez, de entrar em contato com a memória de alguém que não tem nome nem rosto. Que se tornou objeto de tese. Que poderia até ser da Eclea Bosi, o que é uma honra, mas que de certa forma se despersonificou-se e perdeu-se no tempo. Tomou distância da vida. Mas aproximou-se da minha.

Buscando uma morada que me remete a outro tempo. Que é minha cúmplice quando finjo que não faço parte desta época. Uma astróloga disse que eu era uma estrangeira, que iria morar fora do Brasil e blábláblá. Eu ria: "Na verdade, sou um E.T. e quero mudar de planeta".

Não mudei de planeta, mas mudei de casa. Uma casa de janelas grandes, com circulação de ar e luminosidade primorosas. E o chão vermelho. Então sinto paz. Só preciso de um chão vermelho para ser feliz. E obviamente do dinheiro para pagar o aluguel deste pequeno paraíso que me ilude com o meu consentimento.

Também tem bolor e uma fiação elétrica incompatível com as nossas 'demandas' de eletrodomésticos atuais. O pai disse: 'Essa casa aqui foi construída quando só tinha luz elétrica e rádio, quando muito uma TV'.

Era melhor do que eu esperava.