terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Mais sobre o tempo

Percebi que, quando ia procurar uma nova morada, fascinava-me o chão vermelho de cozinha. Aquele piso antigo, de casa de boneca. Na verdade, casa de operários, de famílias numerosas, de gente que começa a prosperar lentamente nos anos de 1950. Mal sabia que o tal chão vermelho tornaria-se uma busca. Quando piso num lugar assim, uma sensação de paz me inunda. Vó. O tal chão me remete à cozinha da minha avó. O tal chão me traz com força uma tonelada de memória que não é minha.

Outra coisa que me encanta são os pisos de madeira. E os imortais tacos.

Limpava os cantinhos com chumaços de poeira e uma ideia me pegou de sobressalto: a de que estaria limpando poeirinhas antes nunca alcançadas por ninguém. Poderia estar retirando daquela composição um detalhe único. Uma poeira de quarenta anos atrás, cinquenta. E a sensação, mais uma vez, de entrar em contato com a memória de alguém que não tem nome nem rosto. Que se tornou objeto de tese. Que poderia até ser da Eclea Bosi, o que é uma honra, mas que de certa forma se despersonificou-se e perdeu-se no tempo. Tomou distância da vida. Mas aproximou-se da minha.

Buscando uma morada que me remete a outro tempo. Que é minha cúmplice quando finjo que não faço parte desta época. Uma astróloga disse que eu era uma estrangeira, que iria morar fora do Brasil e blábláblá. Eu ria: "Na verdade, sou um E.T. e quero mudar de planeta".

Não mudei de planeta, mas mudei de casa. Uma casa de janelas grandes, com circulação de ar e luminosidade primorosas. E o chão vermelho. Então sinto paz. Só preciso de um chão vermelho para ser feliz. E obviamente do dinheiro para pagar o aluguel deste pequeno paraíso que me ilude com o meu consentimento.

Também tem bolor e uma fiação elétrica incompatível com as nossas 'demandas' de eletrodomésticos atuais. O pai disse: 'Essa casa aqui foi construída quando só tinha luz elétrica e rádio, quando muito uma TV'.

Era melhor do que eu esperava.

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