sábado, 17 de março de 2012

"Digite 9 para falar com um de nossos atendentes"

E assim, você não consegue falar com ninguém. Está novamente solitário e ensimesmado. Está paralisado por uma voz eletrônica. Além de mudo. E essa lógica do "Digite 9..." se estende para tudo na vida.

Nos aprimoramos nas habilidades da reclamação, mas estamos apáticos no que concerne à ação. Ação para reivindicar com precisão. Estamos cansados pelas nossas jornadas de trabalho. Estamos dóceis quando tentam tirar a última coisa que temos: os nossos vícios, nossa cerveja, nosso cigarro. Nos tornaram estéreis para a 'higienização' do mundo, de ideias tidas como perigosas. Temos a falsa ilusão de uma estupenda liberdade, em especial no mundo virtual. Onde compartilhamos tirinhas subversivas, onde temos um campo aberto para a movimentação. E nos restringimos à opção "curtir". E pergunto, aos poucos leitores deste mísero blog: aonde está a nossa ação política no cotidiano? Estamos fazendo jus aos nossos diplomas?

Além de lecionar numa escola privada, entrei para a rede pública estes dias. Havia me esquecido de como a organização da administração pública nos faz sentir menores do que já somos. Numa reunião onde discutíamos caso a caso sobre a situação acadêmica e pessoal dos nossos alunos, me veio um pensamento sombrio: o mundo vai acabar mesmo. Melancholia está a caminho. Não é possível vislumbrar um futuro mais positivo para a nossa existência.

Há um tempo atrás, quando contei para os alunos da escola privada algumas das histórias dos que vivem mais exponencialmente sob a malha da ideologia perversa, mergulhados na pobreza, imediatamente eles me perguntavam mais e mais como se estivessem num espetáculo.

Eu comecei a descrever coisas e eles se identificaram. Então pensei: quais as semelhanças entre estes garotos, filhos dos 'neobandeirantes' e dos garotos da periferia (social, com dedo em riste!)?

Há. E é a lógica do "Digite o 9...".

Nas camadas abastadas, os pais pagam para não terem ´problemas' com sua cria. Nas menos abastadas os pais jogam sua prole nas instituições do governo com o mesmo objetivo. Neste aspecto, estamos pareados com a situação das crianças e adolescentes há mais de trocentos mil anos. A visão de que estes seres, são autônomos e pequenos adultos. O problema é que esquecerem de avisar os maiores interessados. Que vivem na expectativa de usufruir de uma certa proteção materna e paterna. A responsabilidade sob a educação deles, no seu aspecto mais amplo, foi terceirizada. Quantas vezes já tive vontade de chegar para os pequenos e dizer: "Você está só. Cuide de si. Faça de si mesmo um território seguro ". Porém, o contracheque no final do mês me impede de tal ação.

Pais vaidosos criam filhos mimados. Além da terceirização, até mesmo do afeto, eles tentam depositar suas próprias responsabilidades nas esferas institucionais. O fato de se recusarem a refletir sobre suas falhas faz com que seus filhos reproduzam este comportamento. E os trabalhadores da educação perpetuam-se atados. E exaustos.

(Este texto não redime as instituições de suas responsabilidades, porém isso fica para outro post)

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Encontro/Confronto

Lembrando que, nesse blog, a melancolia é a rainha. Portanto se você que lê isso tudo, não for amigo ou amiga dela, vá ler Gotas de Sabedoria. Publico com orgulho o que um amigo me escreveu: "Parece que tudo o que você escreve está impregnado de uma tristeza indefinível (melancolia?) e isso me seduz. Detesto as figurinhas da felicidade, ou melhor, da facilidade. A felicidade é para os babacas."


A coisa meio que começou num dia que ouvi uma música e desaguei a chorar. Com toda a propriedade, pois afinal, o motivo do choro era uma canção bonita. Naquela hora pensei: "Posso chorar à vontade e ninguém vai me perturbar". Foi exatamente isso que aconteceu. Encontrei um escape no meio de presenças. Assim foi durante os dias. Estranhei quando estava assistindo a um concurso de modelos que se estapeavam e as lágrimas rolando. Assim já era demais!
Quando sentei na poltrona mais silenciosa do mundo, aquela em que não consigo me enganar, pois só tenho a mim, ria de coisas engraçadas que haviam acontecido durante os dias. A graça foi indo embora e a melancolia foi tomando conta de tudo. Então confessei-me: estou chorando por algo que não chorei no momento. Deixei pra depois. A dor ficou muito bem guardada.
E isso é completamente sem pé nem cabeça. Porque essa, já devia ter aprendido. Dor que não tem mais contexto, não tem mais por quê. Você não trata dela e ela fica, sem o menor cabimento. Mas esta, parece ilustrar um negócio mais profundo. Que não tem nada a ver com ninguém, só consigo, chegamos então a um beco murado.
Afinal, se a dor é só sua e está descolada do espaço-tempo, você vai recorrer a quem? Volto à poltrona, me aninho com uma almofada e me graduo ainda mais na arte de falar só e apenas comigo mesma. Quando o tempo de ficar sentada na poltrona termina, pego um chumacinho de lenços e saio andando pelas ruas. O encontro com o concreto, com os olhares. O encontro com a hora marcada. Sem saída para o em-si-mesmado. O confronto.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Mais sobre o tempo

Percebi que, quando ia procurar uma nova morada, fascinava-me o chão vermelho de cozinha. Aquele piso antigo, de casa de boneca. Na verdade, casa de operários, de famílias numerosas, de gente que começa a prosperar lentamente nos anos de 1950. Mal sabia que o tal chão vermelho tornaria-se uma busca. Quando piso num lugar assim, uma sensação de paz me inunda. Vó. O tal chão me remete à cozinha da minha avó. O tal chão me traz com força uma tonelada de memória que não é minha.

Outra coisa que me encanta são os pisos de madeira. E os imortais tacos.

Limpava os cantinhos com chumaços de poeira e uma ideia me pegou de sobressalto: a de que estaria limpando poeirinhas antes nunca alcançadas por ninguém. Poderia estar retirando daquela composição um detalhe único. Uma poeira de quarenta anos atrás, cinquenta. E a sensação, mais uma vez, de entrar em contato com a memória de alguém que não tem nome nem rosto. Que se tornou objeto de tese. Que poderia até ser da Eclea Bosi, o que é uma honra, mas que de certa forma se despersonificou-se e perdeu-se no tempo. Tomou distância da vida. Mas aproximou-se da minha.

Buscando uma morada que me remete a outro tempo. Que é minha cúmplice quando finjo que não faço parte desta época. Uma astróloga disse que eu era uma estrangeira, que iria morar fora do Brasil e blábláblá. Eu ria: "Na verdade, sou um E.T. e quero mudar de planeta".

Não mudei de planeta, mas mudei de casa. Uma casa de janelas grandes, com circulação de ar e luminosidade primorosas. E o chão vermelho. Então sinto paz. Só preciso de um chão vermelho para ser feliz. E obviamente do dinheiro para pagar o aluguel deste pequeno paraíso que me ilude com o meu consentimento.

Também tem bolor e uma fiação elétrica incompatível com as nossas 'demandas' de eletrodomésticos atuais. O pai disse: 'Essa casa aqui foi construída quando só tinha luz elétrica e rádio, quando muito uma TV'.

Era melhor do que eu esperava.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Pequenos tombos

Uma fagulha atribuída a capricórnio, parece estar deixando esta canceriana que vos fala, um pouco mais prática. Dramas da vida têm me cansado. A imprensa têm me cansado. A reforma ortográfica têm me cansado. Eu escrevi a vida inteira com trema e agora querem tirar isso de mim?
Acabo de notar que o início do parágrafo acima é uma tremenda mentira. Porque, na tentativa de deixar minha vida um pouco mais prática, achei que esqueci dos dramas. E eles estão bem aqui. Sonhei com a miséria personificada em uma garotinha. Pobre, a menina. E ninguém sabia o que fazer com ela. Largá-la ali, no meio de um caminho, quase me matou. Coração doído boa parte do dia. Num momento revirando lentamente o jornal, noutro em prantos. O paciente companheiro, devagarinho vai perguntando o que foi...oferece mais açúcar para o café. Era como uma sensação de luto.
Quem é que tem o humor tão afetado pelos sonhos como eu? Se mais alguém tem isso, por favor, me dê a mão! Me conta como é. Ou vou acabar solteirona!
Hoje, a angústia do dia foi estar numa peça na qual sou meio que figurante, o que não me importa nem um pouco. Na verdade, é agradável e reconfortante. Mas, almejava realmente , estar num outro roteiro em que, tanto faz o meu papel, desde que fosse na companhia de minha personagem favorita. Tudo isso porque sonhei com o seu semblante iluminado por uma luz de alvorecer, dessas de tirar fotografia. Lembrava da foto-sonho e não conseguia parar de chorar. As pessoas, discretamente fingiam que não viam, o que também era bom. Mas como é que um negócio desse brota bem na hora da sobremesa? E como esse tal de capricórnio não conseguiu controlar isso rápido?

"Pode me passar a calda de chocolate, sim?"

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Pequenas sortes

Do lado da Ilha, olhava para o continente e pensava: "Tchau, mundo!". Às vezes dava mais ênfase ao "tchau", divertindo-me em silêncio, enquanto um ou outro estranhavam meus risinhos solitários. Assim começou a contagem regressiva para mais um final de ano cansado. Ai, vida! Às vezes tenho preguiça de existir. E mesmo tendo a possibilidade de viver minha preguiça plenamente, fica um beliscão interno me repuxando, me ditando algo para fazer. "Tchaaaau, mundo!". Felizmente tive a oportunidade de me desprender, nem que fosse por alguns instantes.
Um deles, foi de cima de um caiaque. Envergonho-me por querer descrever um momento que foi puramente instintivo. Parava de remar no meio do mar e por lá ficava. Admirando a imensidão do Mar-Ele. A companhia me perguntava se eu estava cansada. Quando ele me puxava para o mundo com suas perguntas, mesmo que do outro lado - o lado da Ilha, eu me zangava.
Na noite da virada, que como sempre chovia torrencialmente, houve uma grande pausa na aguaceira, próximo às onze e meia da noite. Pensei ser um momento de uma breve sorte. Tentava olhar da Ilha para o "mundo", identificando se haviam nuvens desaguando na costa. Parecia não haver. Para onde teriam ido as nuvens? Onde estaria chovendo naquele momento? Seria um instante sortudo para todo mundo? Provavelmente não. Mas me agarrei naquele ínfimo bom presságio, para um ano que segundo os Maias, os astrólogos e a União Europeia, será de arrepiar.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

O óbvio

Eu só vou falar do óbvio aqui, hoje. Aliás este blog é para falar disso apenas.

Quando um ser sensível ao outro, preocupado com as desigualdades sociais, com a convivência em sociedade, com atitudes políticas cotidianas, com o descortinamento das coisas que nos oprimem, resolve sair a público, é acusado de 'esquerdista' por 'vejistas' ou coisa pior. Então, se tudo isso é ser de esquerda, senhores, eu sou de esquerda.
'Vejistas' são seres que tinham tudo para ter uma existência interessante. No entanto são guiados ideológicamente pela Grande Revista Fabricadora de Opiniões Chulas. 'Vejistas' clamam por liberdade de expressão e quando você vai em alguma baboseira que eles escrevem e opina, se a sua opinião for divergente, eles apagam o registro. HAHAHAHAHA!
Estou cansada de tudo isso. Muito cansada. Minha veia mais radical roga orações ao finado Estado Bolchevique. Que Deus conforte o coração de Lênin.
Deus? É. Que a gente vai ficando véia e começa a apelar para tudo. É Deus, astróloga, I Ching, é terapeuta. É tudo isso e mais um pouco para deixar a existência menos sufocante.
Porque, gente, tá foda. É opressão até na hora de atravessar a rua.
Estes dias, tava relembrando que, quando não morava na Metrópole que 'Tem Tudo', era bom demais. Eu via as correntes de longe. Reconhecia-as de pronto. Não as carregava nas costas sem saber a procedência do peso.
Agora, a dinâmica das relações em-si-mesmadas da cidade grande está mais que preocupante. Fui a uma viagem de formatura de uns alunos meus, dias atrás e, adivinha quem deu trabalho? A turma agressiva, mimada, desrespeitosa, que ria da favela que sustenta a maravilhosa ilha da fantasia em que ficamos hospedados. A turma de São Paulo e Rio de Janeiro, majoritariamente branca e sem a menor atenção com os negros que os atendiam prontamente. Nem notaram essa divisão de posições por cor - os que servem e os que são servidos. Nenhuma atenção ao outro.

Enfio o meu diploma no cu e saio cabisbaixa.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Boletim Revolução de Saturno

Uma astróloga disse que Saturno está bem em cima da minha cabeça neste momento. Eu bradava "Vem nimim!" e batia no peito. O tal do Saturno parece que traz umas mudanças de paradigmas na vida de todo mundo. Sei lá, na verdade, só assenti com a a cabeça e fingi que entendi.

Esses dias descobri coisas novas. Senti coisas novas. Lembrei de coisas antigas que se re-atualizam.

Primeira delas: andei de avião. O friozinho na barriga é demais. Ria de mim, satisfeita, por ser tão caipira. Mas quando o céu encontrou o oceano, chorei.

Segunda delas: descobri que não sou do circo. Por que fui pular do tal trapézio e quase morri. Trinta anos de idade e não saber que se tem medo de altura, é demais pra cabeça.

Terceira delas: que jiló frito em rodelinha fininha é bom!

Relembrei: daquele momento que a gente é pequenininha (o) e descobre que a mãe morre. Aí a mãe vem e fala que vai demorar bastante tempo, ainda. E a gente vai vivendo tranquila (o). Mas descobri que tem mãe que vai antes do combinado.

Vamo lá fazer uma sopa de legumes, vai...