sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Breve história sobre meu sono na vida adulta

Começou com um colchãozinho doado por algum desconhecido. Que parecia daqueles de pet shop, só que mais surrado ainda. Durou um ano ou mais, nem me lembro e tenho a impressão de que ele foi sendo substituído e nem percebi. E nem fazia diferença.
Depois herdei um de casal, também surrado, até mesmo mijado (inclusive por mim, numa situação que não cabe lembrar...), mas foi alí que eu descobri o valor de um bom colchão. Minha vida nunca mais foi a mesma.
Mudei de cidade e de colchão novamente, buscando pelo meu oásis noturno. Achei que o tinha encontrado, mas não.
Mudei de cidade de novo e de novo. A cada cidade, um colchão. Detalhe: SEMPRE DE SOLTEIRO.
O máximo que já consegui compartilhar foi o de um de 88cm, o atual, mesmo assim já achava demais.

Sono é algo sagrado pra mim. Hora de dormir é hora de dormir.

Até que um dia, deparo com alguém esguio ao meu lado, que em nada me incomodava.

E então resolvi algo inédito comprei uma cama maior. É isso mesmo: comprei uma cama maior.

E isso não é tão simples assim.

Ter comprado uma cama maior significa que esse alguém esguio entrou com toda força na minha vida.

Escrevo em caracteres minúsculos, pois isso é quaaaase um segredo.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Procurando por uma atividade física. Karatê? Adoro, mas é pesado. Pilates? Negócio que ninguém sabe direito o que é. Yoga? Tranquilo demais, é preciso um pouco de transpiração. Natação? Caro.

Mas, tudo isso porque?

Me causa calafrios pensar que essa procura advém de uma necessidade de eu ter um condicionamento físico apropriado para a disciplina do meu corpo. Para deixá-lo rígido, preciso, resistente e bem disposto. Só para conseguir enfrentar com vigor físico o mundo.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

E-mail para um antigo amigo

"Querido F... ,

Estes dias estava a lembrar das caminhadas no nosso primeiro ano, naquela D. Antonio ao sol do meio dia e você, apontando para o céu, a acusar o "Hélio" por aquele martírio. Foi quando eu descobri, que ser careca siginificava queimar o couro cabeludo e vc me foi muito solidário naquele momento. Lembrei também, do seu comentário da mão invisível do Adam Smith, que fica cutucando o nosso cu, sem que a gente perceba. Deste comentário nunca vou me esquecer e sempre faço referência à fonte, independente do interlocutor. As mãos invisíveis não são só as do Adam Smith e do mercado, são muitas outras e até anônimas. Me alivia, neste mundo cheio de dedos, reencontrar você, meu amigo querido. Bjs."

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Beijo terno de despedida 2

Tristeza mata. Em especial os velhinhos.
A tia Zinha era nossa tia solteirona nonagenária. Arretada. Afiada. No culto de corpo presente, o pastor dizia que ela era muito tranqüila, gentil, afável. Mentira. Parecia que ele estava falando de outra pessoa. Tava na cara que ele mal a conhecia. Ela chegava a ser grosseira. E isso era o máximo! Essa era a graça. A espontaneidade da bichinha. Num dia, ao telefone:
- Oi tia, tudo bem?
- Quem é?
- A (meu nome).
- Quem?
- A (...). A grandona do (meu pai).
- Aaahh...o que você quer, vocês nunca ligam!
- Só queria dar um oi.
- Hum, tá bom...

Desligou.

E quando a gente se encontrava era só risada. Era uma ironia, até mesmo ingênua, que só quem tem mais de 65 possui. Era uma existência, que aos padrões convencionais, poderia ser tachada de problemática. Pra mim ela beirava a subversão. As duas eram personagens, eram caricaturas vivas.
A casa delas na Mooca congregava toda a família. Era uma façanha. Só elas conseguiam isso. No velório, uma sobrinha muito emocionada suplicava: "A Mooca não pode acabar!".
De fato. Com as tias talvez se foram também os almoços regados a vinho e macarrões dos mais diversos tipos, com mais de quarenta pessoas. Incrível!

A tia não agüentou ficar sozinha na casa enorme em que viveu com a irmã, por pelo menos uns trinta anos. Ela ficou viúva. E optou por acompanhar sua cara-metade no paraíso em que acreditou por toda a vida. Morreu cerca de dois meses depois da tia Irma. Risos no céu!

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Mergulho

Aí vem aquela bola gigante do Indiana Jones rolando, rolando atrás de mim. E então me lembro daquela segunda-feira, fora do espaço-tempo, em que mergulhava numa praia semi-deserta, com uma água de mar verde e que, quando subi à superfície, encontrei teus olhos azuis e o tempo parou. Parou de fazer rir à toa, enquanto o "mundo lá fora" se acabava. E então fico calma de novo.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Passando o tempo

O elevador de onde eu trabalho é nosso inimigo.
Ele tenta matar a gente, talvez para equilibrar um pouco as taxas de crescimento vegetativo da população. Quando se está saindo, uma vaciladinha e a porta já vai se fechando. E ele fala também, com voz suave, de aeromoça: "Favor liberar a porta".
Ele persegue os fumantes. Quando fumo um cigarrinho e entro nele, vem a voz de novo: "Não fume no elevador". Será que ele sente cheiros?
Talvez, ainda, adivinhe o ódio que alguns nutrem por ele. Tem a cara de pau de dizer: "Cuide bem do elevador".

Mundo estranho da porra...