quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

De novo e de novo

Faz umas duas semanas que sair de casa demanda um esforço tremendo de minha parte. É que o movimento lá fora me deixa exausta. Só de respirá-lo, esse frenesi de natal, me consome. Mamis acha que estou com vermes. Não...

Tentando mapear a origem deste cansaço todo, deparei-me com uma definição interessante que poupa explicações mais profundas: dezembrite.
Mas dezembrite não é algo simples como parece. Dezembrite parece uma espécie de parto. Onde almejamos a renovação que chegará em 31 de dezembro, às 23h59m. Mentira. Mas porque não fingir que se crê nisso? Vai que dá certo...

Outra coisa me intriga: não sou nada amiga do natal. Além de razões políticas e religiosas, é no natal que me deparo com os falhamentos geológicos de meu ser. É numa cadeira que nunca foi preenchida à mesa, é na saudade que sinto de quem está vivo e longe, é na repulsa em alimentar as neuras da minha mãe que persegue uma perfeição inexistente na ceia, é na melancolia de comer um peru que foi importado da ação de graças. E peru é um bicho grande. É um bicho pra se comer entre muita gente! E eu sou de família moderna. Ela é completamente fragmentada. E isso me remete ao tempo em que ela não era. E me traz uma sensação que senti plenamente um dia: segurança e tranquilidade.

Essa é a angústia. Eu sei o que é tranquilidade e ela fugiu de mim. Depois desse ano, que data ainda da década de oitenta, tornei-me uma personagem de Woody Allen. Mais uma.

E eu também aprendi que tudo isso é construção. Mas eu não consigo...

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Espécie de maternidade

Sempre gostei de bichos, mas a uma distância considerável.
Tenho uma tartaruga com a minha idade. Somos grandes amigas.
Com a cachorra de 16 anos que tenho, aprendi a respeitar os bichos (entenda-se: não colocar o gato no forno) e me tornei quase ativista da ong da Luisa Mel (mentira!).
Até que encontrei um ser superior e fofo, numa calçada, nas profundezas da zona leste.
E agarrei amor!
E deixo ela entrar na cozinha. E na sala. E no quarto. E acordo de noite pra dar bronca nela. E a chamo de bebê! E dou remedinho, compro brinquedinhos e brinco com ela. E fico prestando atenção nas maluquices que ela faz. Comento: "Que lindo!". Ela mastiga meu chinelo, revira o lixo, caga no taco e me emociono. Cai uma lágrima Tenho crises: "Sou uma mãe omissa?".
Mas eu não me lembro de ter sentido sensação semelhante. Uma espécie de estado de graça. Que me deixa com olheiras, lógico. Mas, idiotamente, continuo rindo.
"Vem cá bebê!"